sexta-feira, 1 de junho de 2012

A difícil vida dos hóspedes da saúde do Jequitinhonha e Mucuri, em Belo Horizonte

Na longa espera por consultas, exames e cirurgias, doentes e familiares dos Vale do Jequitinhonha e Mucuri dividem sofrimento, angústia e esperança em pensões na área hospitalar de BH

 Estado de Minas/Blog Banu

Como o tempo demora a passar, a acompanhante Maria José Pereira, de Bertópolis, no Vale do Jequitinhonha, observa o movimento na porta da Pensão Santa Rosa (Leandro Couri/EM/D.A Press)
Como o tempo demora a passar, a acompanhante Maria José Pereira, de Bertópolis, no Vale do Mucuri, observa o movimento na porta da Pensão Santa Rosa
Nas 12 pensões instaladas nos arredores da Santa Casa de Misericórdia, na área hospitalar do Bairro Santa Efigênia, Região Leste de Belo Horizonte, a medida das horas é um pouco diferente. Nelas a vida passa arrastada e o tempo é contado a partir das datas de exames, consultas, cirurgias, retorno ao médico e possível volta para casa. Diante do portão de uma das pensões, se distraindo com o vaivém da Rua Piauí, está Maria José Pereira, de 48 anos, que há um mês saiu de Uburaninha, um povoado do município de Bertópolis, no Vale do Mucuri, para acompanhar uma amiga que luta contra um câncer de mama.

A mesma casa que hospeda Maria José abriga centenas de pessoas vindas do interior de Minas para tratamentos que demandam cirurgias ou equipamentos mais sofisticados, coisa rara em cidades pequenas. A senhorinha falante que deixou os filhos na pacata Uburaninha não é de ficar circulando pela cidade – “Aqui é muito grande, tenho medo de me perder” – e diz que, para o relógio andar mais rápido, o jeito é procurar novas amizades e algum serviço ali mesmo. “Para divertir e passar o tempo tem de arrumar o que fazer, minha filha: uma vasilha para lavar, um terreiro para varrer, qualquer coisa assim”, ensina Maria José.

Ela não é a única no hotel que se dispõe a fazer o serviço de casa enquanto espera uma boa notícia dos médicos. No refeitório da pensão há sempre alguém se prontificando a fazer um café ou lavar os copos. “A gente acorda muito cedo, então o melhor é cortar uma verdura para o almoço, coar um café e assim passar o tempo. Como tem muita gente de fora, a gente acaba fazendo amizade e ouvindo a história de um e de outro também”, conta Maria das Graças Rodrigues Viana, de 33, que percorreu 700 quilômetros de Joaíma, no Médio Jequitinhonha, nordeste de Minas, até BH para acompanhar o pai, que está com descolamento de retina. Os dois filhos ficaram com os tios e são o motivo de maior saudade de Maria das Graças, que já está na capital há 22 dias entre consultas e exames. “É bem difícil ficar aqui. Sinto falta demais da minha família. A gente vê o pessoal indo embora e só a gente ficando… Não é fácil”, admite a dona de casa.

Embora sejam limpas e tenham um aspecto tranquilo, as pensões realmente não se comparam ao ambiente familiar. Na Santa Rosa, um longo corredor pouco iluminado leva aos 14 pequenos quartos onde precisam caber duas camas. Os banheiros, feminino e masculino, são coletivos. A diária, de R$ 35, inclui café da manhã, almoço e jantar. Apenas o refeitório e a sala de televisão são locais coletivos e é lá que os hóspedes se encontram para jogar conversa fora, contar piadas e, muitas vezes, consolar um ao outro nos momentos difíceis.

Alegria em meio à dor

A professora Maria Salomé de Matos Pereira, da cidade de Santa Helena de Minas, também no Vale do Mucuri, tenta ignorar o desconforto e não reclama, apenas ressalta o valor das companhias que tem ali. “Tem hora que todo mundo ri, tem hora que todo mundo chora. O bom é que a gente divide as tristezas da vida aqui. A gente troca”, relata Salomé, que vem a Belo Horizonte com frequência para o tratamento de um tumor na tireoide. Para ela, que está sozinha na capital, poder contar com a companhia dos outros hóspedes e o apoio dos funcionários da pensão é um alento.

“No início da doença todo mundo o visita. Depois cada um vai tocar sua vida. Aqui fico cercada de gente. Teve uma vez que fiz um exame muito dolorido, cheguei aqui acabada, não conseguia nem falar. Foi o pessoal da pensão que cuidou de mim”, diz. No dia a dia, Salomé consome o tempo de espera pela radioterapia lendo, ouvindo música e assistindo a televisão. No quarto da professora há tantas malas e balangandãs que ela mesmo brinca: “Trouxe um pedaço da minha casa para me sentir melhor.”

Quem tem mais experiência com a vida na pensão já descobriu que para ter um pouco mais de conforto é preciso dominar algumas táticas. Para ter um banheiro limpo, por exemplo, tem de saber o horário que a pensão está mais vazia. Quem gosta da comida quentinha precisa descobrir a hora certa para chegar ao refeitório. Segundo os hospedes, com estratégia, paciência e um pouco de bom humor é possível vencer a dificuldade de estar longe de casa enfrentando a enfermidade de perto.

“A viagem é cansativa (são 12 horas), a gente fica nesse vai e volta, mas tem de agradecer a Deus de ter esse tratamento para a gente fazer aqui”, diz dona Maria Alves de Souza, de 71 anos, de Joaímano Baixo Jequitinhonha, que não tira o sorriso do rosto, apesar da artrite que insiste em acompanhá-la. 


 (Leandro Couri/EM/D.A Press)
Um anjo da guarda ao lado

Se a cidade grande assusta pela solidão, nela também é possível encontrar um pouco de afeto. A secretária da Pensão Santa Rosa, Elza Barbosa Ramos, de 42 anos, (à esquerda na foto, com a paciente Maria Salomé Pereira, de Santa Helena) é descrita por alguns hóspedes como um anjo da guarda. O cargo de secretária se limita ao previsto na carteira de trabalho: “Faço de tudo. Levo pacientes às consultas, busco no hospital quem recebe alta e está sem acompanhante, faço curativo, o que precisar.” Há três anos na pensão, que fica na região hospitalar, Elza já viu muita coisa e perdeu pessoas que conheceu ali e por quem acabou criando afeto. “Seu Geraldo era apaixonado por mim. Ele estava bem, mas, de uma hora para outra, começou a passar mal e foi embora. A gente sente demais isso, mesmo que não seja parente.” Solidária, a funcionária da pensão também já assumiu tarefas que vão muito além da função registrada em carteira. “Chegou um senhor aqui sem acompanhante, sem roupa, coitado. Peguei uma roupa do meu irmão, mandei comprar material de higiene e fiz os curativos nele. Não consigo ver ninguém doente e assim desvalido”, diz. Elza é interrompida por um hóspede que quer saber onde está a chave. “Tá vendo? É assim o dia inteiro. Não tenho tempo de tomar um café”. Como retribuição à disponibilidade de 24 horas diárias, os hóspedes presenteiam Elza com o que há de melhor na terra de cada um: biscoito, bolo, queijo e requeijão são os mimos mais frequentes. “Isso que recompensa o cansaço. Adoro trabalhar aqui.”

Um comentário:

Anônimo disse...

A FALTA DE SUPORTE CLÍNICO DIFICULTA VOLTA DE BONS PROFISSIONAIS PARA SUAS CIDADES DE ORIGEM! MÉDICO SEM ESTRUTURA NÃO PASSA DE UM INFELIZ EXPECTADOR PRIVILEGIADO DO SOFRIMENTO DAS PESSOAS.

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