segunda-feira, 17 de março de 2014

Especialistas avaliam a forma da presidente Dilma fazer política

Nas vezes em que se sentiu provocada ou quando avaliou que havia riscos à imagem do governo, Dilma puxou o tapete de aliados sem constrangimentos.

Se o líder do PMDB na Câmara, Eduardo Cunha (RJ), tem tirado o sono de Dilma Rousseff, puxando o coro da insurreição dos deputados federais, outros políticos e assessores já passaram por atritos com a presidente – e não se saíram bem. Nas vezes em que se sentiu provocada ou quando avaliou que havia riscos à imagem do governo, Dilma puxou o tapete de aliados sem constrangimentos. Lideranças do governo na Câmara e no Senado, assim como integrantes do Executivo federal, estão entre os que perderam a queda de braço para a petista (leia quadro).

A postura de comando, de poucas concessões e muitas vezes autoritária, acabou isolando a presidente a ponto de, nas últimas semanas, ter perdido o controle da Câmara dos Deputados e o embate com o blocão articulado por Cunha. Outro reflexo da mão de ferro de Dilma é o clamor de alas petistas pelo retorno do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao centro do debate eleitoral, com uma candidatura ao terceiro mandato. Para especialistas, a viabilidade política de um eventual segundo governo da presidente – desde a composição de alianças até a formação da base aliada – só poderia ser garantida nas urnas, uma vez que traquejo político e capacidade de liderança ela tem pouco.

“Ela carece efetivamente de uma postura de líder político. Ela não é uma líder; é uma pessoa que tem o cargo mais importante da República, mas não tem capacidade de negociar. Procura sempre impor o ponto de vista dela”, analisa Rui Tavares Maluf, professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo. Para ele, além das nuances de autoritarismo, a “concepção gerencial levada ao extremo” seria outra característica central na presidente. “Ela sempre ocupou papel de liderança na burocracia, onde a estrutura é muito mais hierárquica do que no jogo da política no Congresso”, complementa Lúcio Rennó, professor de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB).

Rui Maluf compara a relação da presidente com os aliados como uma corda já tensionada ao limite, prestes a se romper – como teria ficado evidente na semana passada, quando 10 ministros foram convidados ou convocados a prestar esclarecimentos ao Congresso. “Apesar da anunciada reforma nos ministérios, isso dificilmente mudará o ritmo da insatisfação, que acarretou em iniciativas como as convocações.” Rennó discorda da intensidade do isolamento, mas concorda que os atritos são inegáveis. “Ocorrem sim conflitos, eles são barulhentos, mas o governo ainda conta com uma maioria razoável e com o apoio de lideranças bastante significativas.”

POPULARIDADE O cientista político da UnB acredita que Dilma conta com a popularidade, refletida nos índices de intenção de voto, como arma de defesa e de ataque. “O capital político que ela detém é o que a torna poderosa. Ela usa desse poder, o que está claro nas atitudes dela”, acredita Rennó. Como exemplo da relação entre a confiança da presidente e as previsões para as urnas, ele cita a crise que se abateu sobre a classe política com os movimentos de junho de 2013, em que popularidade da presidente caiu. “A atitude dela mudou drasticamente nos meses seguintes. Ela aparecia de forma mais cordial.”

Rennó ressalta que ela e a cúpula mais próxima apostam muito no cabedal eleitoral que ela tem. “É a principal candidata para a eleição deste ano. Acho que essa confiança, alguns podem dizer que exagerada por conta desses indicadores, na percepção dela a coloca em posição de não fazer concessões. Essa tem sido a tônica do mandato dela.” Ante o poder de votos esboçado pelas pesquisas, mesmo contrariados, aliados se apegam a Dilma, de olho em outubro. “É uma moeda de pressão política muito grande. No Rio, (Sérgio) Cabral e (Eduardo) Paes fazem questão de estar ao lado dela, mesmo após o PT lançar candidato (senador Lindbergh Farias). Ambos dizem que Dilma é a candidata deles.”

No caso de um eventual segundo mandato, acredita Maluf, “é difícil imaginar que ela consiga aprender com os erros cometidos agora”. Para ser reconduzida ao Planalto em condições de governar com o apoio Congresso, no entanto, o cientista político alerta que Dilma não teria somente que vencer a eleição para se impor, mas vencer muito bem. “Não só com uma votação pessoal grande, eventualmente até no primeiro turno, mas fazer uma bancada significativa, sobretudo na Câmara. Dependendo do tamanho do PT e dos partidos da base, e de como ela vai compor o ministério, muita dor de cabeça virá para ela e para o país, em um eventual segundo mandato.”

Batida de frente

Veja algumas das vítimas do estilo Dilma de se relacionar com os aliados

Rejeição de indicado
Líder do governo no Senado desde o governo Fernando Henrique Cardoso, Romero Jucá (PMDB-RR) atravessou os dois mandatos do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva no importante posto de articulação política. No mandato de Dilma, o senador chegou a ocupar a liderança por pouco mais de um ano. Entretanto, no início de 2012, como ápice de uma revolta peemedebista, conseguiu peitar a presidente e barrar a recondução de Bernardo Figueiredo – indicação pessoal de Dilma – para a diretoria-geral da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT). Jucá pressionava o Planalto por mais espaço para o PMDB no Executivo. Cinco dias depois, em 12 de março, foi substituído pelo colega de sigla Eduardo Braga (AM).

Fogo amigo
A queda de Jucá acabou ajudando o Executivo a justificar a retirada de cena do influente deputado federal Cândido Vaccarezza (PT-SP). Líder do governo na Câmara desde janeiro de 2010, o paulista caiu junto com Jucá. À época, o Planalto explicou que começaria ali um rodízio permanente para os cargos, o que nunca se concretizou. Escolhidos naquela época, Eduardo Braga e Arlindo Chinaglia (PT-SP) ocupam as lideranças no Senado e na Câmara, respectivamente, desde então. O real motivo da queda de Vaccarezza, no entanto, teria sido o fogo amigo contra a senadora Ideli Salvatti (PT-SC), com quem disputava a Secretaria de Relações Institucionais. Ideli virou ministra e, hoje, Vaccarezza encabeça a ala petista do “volta, Lula”.

Liberal demais
Aos 28 anos, em fevereiro de 2004, Pedro Abramovay se tornava o mais jovem ministro da Justiça — ainda que interino e por poucos dias. A trajetória do jovem advogado, iniciada no staff de Marta Suplicy na Prefeitura de São Paulo, inclui o cargo de assessor especial do Ministério da Justiça (MJ) e se consolidou com as nomeações para a Secretaria de Assuntos Legislativos da pasta, em 2007, e para a Secretaria Nacional de Justiça, também do MJ. No início do governo de Dilma Rousseff, no entanto, a passagem de Abramovay pelo Executivo se encerrou com uma rápida parada na Secretaria Nacional Antidrogas. Em entrevista, defendeu a imputação de penas alternativas para usuários de drogas. A ideia não agradou à presidente, que repudiou a política por meio do ministro José Eduardo Cardozo. O advogado foi obrigado a pedir demissão após somente 21 dias no cargo.

Amor e ódio
A relação de Dilma Rousseff com o ex-ministro do Trabalho Carlos Lupi começou a azedar quando o presidente do PDT – partido que a presidente ajudou a fundar no Rio Grande do Sul – estava rodeado de denúncias contra a pasta, em 2011. Ao se defender das acusações de desvio de dinheiro, Lupi disse a jornalistas que só sairia “abatido à bala”, garantindo que era próximo de Dilma – tudo sem o consentimento dela. Foi repreendido e, dias depois, voltou a procurar a imprensa com um “Dilma, eu te amo”. A emenda ao soneto não surtiu efeito, Dilma não bancou o esperado apoio e Lupi acabou sendo trocado. Em 2014, o pedetista incomoda o Planalto por flertar demais, para todos os lados. “Xeque-mate” foi a expressão de Lupi para qualificar uma suposta oferta de ser do PDT o posto de vice-governador na chapa de Luiz Fernando Pezão (PMDB) ao governo do Rio, onde o candidato do PT é Lindbergh Farias.

UAI

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