segunda-feira, 16 de junho de 2014

Banda-larga e popularização das redes sociais são terreno fértil para a propagação de mentiras, compartilhadas por eleitores mais comprometidos com a polêmica do que com a verdade

Banda-larga e popularização das redes sociais são terreno fértil para a propagação de mentiras, compartilhadas por eleitores mais comprometidos com a polêmica do que com a verdade

Terrorista, Dilma Rousseff também é antirreligiosa. Já Eduardo Campos (PSB) vai privatizar o Banco do Brasil e Aécio Neves (PSDB) não quer os votos dos professores. Embora preceda a internet, a boataria envolvendo a vida dos principais candidatos a presidente do Brasil promete extrapolar os limites nas eleições deste ano – tempos de popularização da banda-larga e da disposição de alguns eleitores em propagar histórias que estejam mais de acordo com suas convicções políticas do que com a credibilidade da informação.

Os boatos sempre aparecem em ano de escolher presidente. Na campanha de 1989, o então candidato Luiz Inácio Lula da Silva foi acusado de ligação com o sequestro do empresário Abílio Diniz apenas porque um dos sequestradores foi visto usando uma camiseta do PT. Quem reclamava de boato quatro anos antes era Fernando Henrique Cardoso, que perdeu a campanha para prefeito de São Paulo em 1985 contra Jânio Quadros, que aproveitou a resposta evasiva de FHC sobre sua fé para propagar a história de que ele era ateu.

Um ano antes da eleição: Partidos buscam estratégias contra ataques virtuais
Mas desde que a internet ganhou popularidade na última década, os boatos eleitorais ganharam ainda mais alcance, como a que alertava para a privatização da Petrobras que Geraldo Alckmin (PSDB) providenciaria se vencesse Lula na campanha presidencial de 2006. Em 2010, a então candidata Dilma precisou ir a publico desmentir uma frase atribuída a ela na internet segundo a qual “nem Jesus Cristo” lhe tiraria a vitória.
Naquele mesmo ano, o adversário José Serra (PSDB) se viu em apuros para desmentir a história de que acabaria com o programa Bolsa Família se terminasse eleito. “Foi um problema muito sério e piorou muito com a divulgação pelas redes sociais. Muita gente também repassou a desinformação por e-mail, mas o Facebook e o Twitter foram os principais meios de repasse”, recorda-se Paulo Rebêlo, diretor da Paradox Zero, agência especializada em tecnologia, comunicação e política.
Mas dessa vez o alcance das redes sociais é ainda maior. O site especializado scup.com , por exemplo, reuniu as menções aos principais candidatos a presidente nas redes sociais desde março último. Nele, Aécio é mencionado 278.848 vezes no Twitter, 65.342 no Facebook e 37 vezes no Instagram. Dilma inverte a estatística e é comentada mais no Facebook: 117.557 menções, além das 35.947 citações no Twitter e 5.741 na rede social de fotos. Eduardo Campos foi lembrado 65.781 vezes no Facebook, 19.154 no Twitter e 816 no Instagram.
Este ano a boataria ganhou o noticiário a partir do Facebook, quando, no fim do mês passado, a página TV Revolta angariou mais de 3,6 milhões de fãs relacionando o PT a notícias falsas. No dia 15 de maio, o boato era de que o primeiro ministro da China, Wen Jiabao, teria distribuído conselhos administrativos à Dilma durante uma visita ao Brasil.
A polêmica da página só deu lugar à outra, dessa vez envolvendo a famosa Dilma Bolada, administrada por Jeferson Monteiro. O rapaz, de 24 anos, acusou uma agência de publicidade contratada pelo PSDB de oferecer-lhe R$ 500 mil para mudar de lado e começar a criar boatos contra o governo federal. “A disseminação de histórias mentirosas pelas redes sociais é um fenômeno mundial, não é exclusivo do Brasil”, diz Rebelo.
O professor da Universidade Americana de Paris Jayson Harsin escreveu um livro em 2008, batizado The Rumour Bomb (O Boato Bomba). Nele, o autor defende que os boatos ganharam uma nova dimensão na sociedade desde o advento da internet. A web teria criado uma "crise de confiança" nas informações, como a replicada por republicanos na eleição presidencial americana de 2008. Na ocasião, dizia-se que Barack Obama tinha ascendência muçulmana.
Para a doutoranda em redes sociais na Universidade Austral, de Buenos Aires, Ana Branbilla, é bem comum o fascínio em propagar boatos em nome de convicções pessoais. “Quando se cria um boato, o compromisso com a verdade se perde e isso abre margem para histórias incríveis, que impressionam e tocam justamente as convicções pessoais dos usuários”, diz ela. “O teor passional dos boatos desperta essas convicções e mobiliza o usuário ao impulso daquilo que é a atitude mais comum nas redes: o compartilhamento imediato.”
Coordenador da campanha digital do PT em 2010, Marcelo Branco diz que as campanhas políticas subterrâneas priorizam a espetacularização da denúncia, tentando apontar o candidato mais corrupto, despolitizando as campanhas. “Nada de relevante se discute, enquanto o público se une pelas demandas de que mais gosta.”
Para Ana e Rebêlo, a boataria na web em tempos de eleição já está incontrolável. “O Brasil é sempre motivo de piada internacional toda vez que a Justiça ordena a retirada de um determinado conteúdo só porque o artista ou político não gosta”, diz Rebêlo. “O conteúdo até pode sair do ar, mas o efeito será negativo em dobro.”
A doutoranda em redes sociais acredita que a internet “é um território amplo demais para controles jurídicos ou de qualquer outra natureza”. “Ainda que haja ferramentas que permitam rastrear o ponto de origem de uma mensagem falsa e citar criminalmente seu autor, é impossível desfazer o impacto que aquela mensagem produziu no público que a leu antes que fosse identificada como inverídica.”
Ao iG, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) afirmou que não tem o papel de fiscalizar boatos nas redes social. “O que fazemos é julgar as representações de partidos ou do Ministério Público Eleitoral, quando avaliamos se a ação denunciada fere a lei." O TSE não revelou quantos processos a esse respeito aguardam parecer.
Um deles foi movido pelo PSDB no fim de maio, em que denuncia uso de computadores da Prefeitura de Guarulhos (Grande São Paulo), administrada pelo PT, para criar perfis em redes sociais com críticas a Aécio. Nataly Galdino Diniz, servidora que administrava o site pirata, terminou exonerada.
Já o Facebook garante que tem uma equipe “que opera 24h por dia e sete dias por semana para analisar qualquer tipo de conteúdo denunciado por meio do site.” “O Facebook está preparado para atender às demandas da Justiça Eleitoral”, afirmou a rede social por meio de nota.
Enquanto partidos políticos e seus simpatizantes montam estratégias para vender boato como notícia, cabe ao eleitor prestar atenção ao que recebe, seja na caixa de e-mail, seja na linha do tempo de sua rede social. “Se rastrear o autor original de uma mensagem é muito difícil, vale ao menos observar pelas mãos de quem essa mensagem chegou. É um perfil confiável? Esse perfil ou página está comprometida com alguma causa, candidatura ou corrente partidária em especial?”, questiona a doutoranda.
Rebêlo lamenta que “na vida real” essa precaução não aconteça. “É o mesmo que pedir para as pessoas não clicarem nos anexos recebidos por e-mail por causa de vírus. A maioria sempre clica...” Ana indica alguns sinais: “Desconfie sempre. Mensagens oficiais de campanhas eleitorais, sobretudo em relação ao opositor, são geralmente dignas de desconfiança. Antes de compartilhar, pergunte-se brevemente: ‘e se isso não for verdade?’"

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